terça-feira, julho 10, 2007

FLIP – 2007

Foram três dias de sol, com um friozinho agradável durante a noite, em Paraty. Perfeito! A cidade estava enfeitada, como sempre, com seus bonecos de papel machê, além de inúmeros balões pendurados nas árvores. Havia a tenda da Flipinha (para as crianças, com a presença de Bartolomeu Campos de Queirós, Mariana Massarani, Gabriel o pensador e outros), além de oficinas realizadas na praça. Artistas expondo seus trabalhos nas ruas, pessoas tocando, pintando, esculpindo e declamando poesias à noite, nos bares e restaurantes. Nenhuma briga, nada de confusão. Pura celebração da literatura e da diversão.

Havia muitos turistas estrangeiros e de vários lugares do Brasil, convivendo em perfeita harmonia. Experimentamos no “Bar Che” e, depois, em um restaurante argentino o chope Caborê, “a cerveja artesanal de Paraty”. Caborê é uma corujinha do campo e nome do bairro onde se localiza a cervejaria. É do tipo Pilsen, clara, de baixa fermentação, feita com puro malte, lúpulo e leveduras especiais, sem conservantes, de acordo com a Lei de Pureza alemã. Uma delícia!

Começamos a participar da FLIP na sexta-feira com a Mesa 6 – A vida como ela foi – com Fernando Morais, Paulo César de Araújo e Ruy Castro, três escritores de biografias famosas, como “Chatô, o rei do Brasil”, “Roberto Carlos, em detalhes” e “O anjo pornográfico”, respectivamente. Os três autores tiveram problemas com a publicação de alguns dos seus livros, levada ao Judiciário, por motivos distintos. Paulo César se emocionou ao falar dos quinze anos de pesquisa dedicados à biografia de Roberto Carlos, no contexto da Música Popular Brasileira e o “acordo” realizado por um juiz do Juizado Especial Criminal, no interior de São Paulo, que levou ao recolhimento de 11.000 exemplares, entregues ao rei. Os Juízes foram “a bola da vez”. Como leigos, os biógrafos cometeram aberrações jurídicas no que disseram e, por outro lado, falaram também muitas verdades sobre os “togados”. Sustentaram a incompatibilidade entre dois dispositivos constitucionais: o que defende a liberdade de expressão e o que protege o direito à imagem. As falas mexeram com o público e arrancaram calorosos aplausos da tenda da matriz (telão para 850 pessoas) e da tenda dos autores (teatro para 250 pessoas).

Em seguida, assistimos à mesa 7 – Álbum de família, com Ahdaf Soueif e a revelação Ana Maria Gonçalves, falando sobre o seu aclamado “Um defeito de cor”, história de uma africana que chega ao Brasil, após ter passado por muitas intempéries, até participar da “revolução” Malê, dos negros muçulmanos, em Salvador.

A mesa 8 –Terras- teve a participação do moçambicano Mia Couto e do brasileiro Antônio Torres, mediada pelo angolano José Eduardo Agualusa. Mia foi, como de costume, poético (“o que já está queimado não volta a arder”), dizendo não se recordar dos nomes dos seus livros (“Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, por exemplo) e a conversa girou sobre a terra de cada um, passando pela guerra civil em Moçambique (hoje não há a guerra feita com armas, pela liberdade, mas há a guerra da miséria. – Mia Couto). Antônio Torres deu graça à conversa falando sobre Sátiro Dias, cidade onde nasceu.

A mesa 10 – Panteras no Porão – com Amoz Oz e Nadine Gordmer, ele nascido em Jerusalém, distinguido com o Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras, em reconhecimento dos seus esforços no uso do hebreu como «brilhante instrumento» para a arte literária e para a revelação das realidades do nosso tempo, e ela, tendo recebido o Prêmio Nobel da Literatura em 1991, chamou, mais uma vez, a atenção para a ignomínia que era o apartheid, na África do Sul. Leram trechos dos seus livros e falaram sobre como são criticados em seus próprios países. Amigos, há 10 anos, os escritores conversavam no palco com muita intimidade, emocionando e fazendo rir os espectadores das duas tendas.

A mesa 11- Nelson Rodrigues /Ato 3 – teve a participação de Leyla Perrone-Moisés, Nuno Ramos e Arnaldo Jabor (através de um vídeo enviado pelo escritor que não pôde estar fisicamente presente). A mediação foi de Nelson Motta. Os dois primeiros participantes tiveram falas teóricas, enquanto o vídeo do Jabor e a narrativa de Nelson tiveram um caráter intimista, com detalhes da vida e da convivência de ambos com Nelson Rodrigues.

A mesa 12 – Dois lados do Balcão – teve a participação do argentino César Aira e de Silviano Santiago, os quais falaram sobre escrever ensaios e ficção e de como migrar de um gênero a outro.

O que mais havia para ver em Paraty? A Casa da Cultura, há três anos com o projeto de Bia Lessa, contendo a história da cidade e dos moradores, com muita arte, vídeos e passeio guiado. Há também o Teatro de Bonecos (não tive a oportunidade de assistir, mas comprei o dvd), os passeios de charrete, de escuna, o caminho do ouro, o forte e muito mais. Impossível ver, aproveitar tudo, em apenas três dias.

A Igreja da Matriz estava enfeitada com um véu de noiva (homenagem a Nelson Rodrigues) do alto da torre – com a grinalda – até o chão. Ao fundo a faixa: CULTURA EM GREVE. Uma pena! Os professores e outros profissionais da cultura reivindicando melhores salários...

Enfim, não foi possível assistir a todas as mesas, até porque os ingressos para boa parte delas já estavam esgotados, como a do Premio Nobel J. M. Coetzee, autor de obras como Juventude, Desonra, Diário de um ano ruim e muitos outros.

A viagem a Paraty e à literatura valeu a pena. Agora resta aguardar a FLIP 2008, com seus prováveis novos e bons momentos.

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